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A influência da Ditadura Militar no futebol cearense

Foto: Divulgação/Ceará SC

Além de pessoas torturadas, clubes foram extintos e jogadores anistiados

Texto: Bruno Barreto (Twitter) e Honorato Vieira

Nesta quarta-feira, 01, completa-se 57 anos desde o golpe militar de 1964, que foi realizado pelas Forças Armadas do Brasil contra o então presidente João Goulart. O golpe foi articulado entre 31 de março, quando se iniciou a rebelião militar, e 9 de abril, quando foi publicado o Ato Institucional n° 1 (AI-1). A ditadura no Brasil durou até 1985 com várias mortes e retrocesso para o país.

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Rupturas no futebol cearense

O período militar teve uma forte intervenção no futebol nacional, chegando ao ponto de ter militares no comando de federações do esporte. O futebol foi uma das maneiras do governo tentar fazer a população não saber o que acontecia nos bastidores da ditadura. Para o governo, ganhar a Copa de 70  significava muito mais que um título, era o Brasil ganhando destaque internacional.

Encontro em Brasília: Pelé levanta a taça da Copa de 1970 ao lado de Médici (Foto: Gazeta Press)

No futebol cearense tivemos um clube que foi extinto por consequências do período militar. O Usina Ceará foi um clube cearense fundado em 1949, que fez boas campanhas no campeonato cearense, sendo campeão do segundo turno em 1957 e 1962, além de ter sido campeão do terceiro turno em 1961.

A equipe era conhecida como “clube proletário”, pois era formada na sua grande maioria por trabalhadores da Fabrica Siqueira Gurgel, conhecida como Usina Ceará, que tinham que alternar sua jornada de trabalho com treinamentos, amistosos e partidas oficiais.

A ditadura militar promoveu um boicote ao presidente da fábrica na época, Moises Pimentel, que além disso teve seu mandato de Deputado Federal cassado por “supostas” ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). Sendo assim, o clube perdeu sua maior forma de financiamento e não conseguiu se sustentar, sendo extinto.

Fernando Antunes Coimbra, o Nando que chegou a vestir a camisa do Ceará foi mais uma das vitimas do período autoritário. O jogador era estudante de filosofia e adepto ao Plano Nacional de Alfabetização, que consistia em alfabetizar os brasileiros usando o método de Paulo Freire.

Nando fez muito sucesso no alvinegro cearense e ganhou destaque no futebol europeu, sendo contratado para jogar no Belenense, de Portugal, chegando lá teve uma surpresa desagradável, quando integrantes da policia de estado portuguesa, comandada pelo ditador Antonio Salazar lhe interrogaram e depois de várias ameaças Nando teve que deixar o país e voltar para o Rio de Janeiro.

Nando em Portugal

Em 1970, Nando, Cecilia (sua prima) e seu marido foram levados ao DOI-CODI (órgão de repressão da ditadura) e lá foram detidos e torturados por dois dias, chegando a ficar totalmente desfigurado e irreconhecível.

Em 2015, o Ceará lançou um novo espaço no Centro Cultural do clube que tinha como referência o livro “Futebol e Ditadura”, editado e publicado em 2011 pelo próprio Centro Cultural e que revela diversas histórias verdadeiras de pessoas, especialmente cearenses e muitos torcedores do Vovô, que foram torturados e perseguidos durante o regime militar. O livro tem como tema principal a trajetória de vida de Fernando Antunes Coimbra, ou simplesmente Nando Antunes, como é mais conhecido.

Nando, irmão de Zico, na série “Linhas Tortas”, da AMAZON (Foto: Reprodução/Abreu Neto)

Hoje não é um dia de comemorações, pessoas foram torturadas e mortas, outras nunca tiveram seus corpos encontrados. A imprensa foi covardemente atacada pelo regime, sendo censurada em várias ocasiões chegando até mesmo a matar jornalistas, como Vladimir Herzog que tentaram encenar sua morte como um suicídio, gerando grande indignação em diversos setores da sociedade civil. A liberdade de expressão é a alma do bem-estar e devemos prezar sempre por ela.

Bruno Barreto

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