Em live, Sérgio Alves fala sobre o trabalho no futebol feminino do Ceará

Foto: Thiago Gadelha/SVM

Sérgio Alves é atualmente treinador da equipe feminina do Ceará

O ex-jogador e ídolo do Ceará, Sérgio Alves, participou de uma live nesta quinta-feira, 2, pelo Instagram, no perfil da equipe Bola na rede. No bate-papo Sérgio falou, entre outros assuntos, sobre sua atual função como técnico do time principal de futebol feminino do Vozão. O “Carrasco Alvinegro” completará um ano à frente da equipe feminina.

ENTREVISTA AO ESCRITOR DANIEL SILVIO:

DS: Eu acho muito legal esse movimento dos clubes de resgatar os ídolos dos clubes nas funções técnicas e administrativas dos clubes. Você no time feminino do Ceará, Clodoaldo no Fortaleza. Como você analisa esse contexto?

SA: Cara, eu acho muito importante. Hoje eu estou comandando o futebol feminino. O Erivelton é treinador do sub-13 ou sub-15 se não estou enganado. O João Marcos está lá dentro do CT. Provavelmente, tudo indica que o João Marcos não quer ser treinador. Ele quer ser mais um coordenador. Isso é muito importante. No Fortaleza, tem o Clodoaldo em uma categoria e o Rinaldo na outra. Então, isso é importante, porque lá dentro dos clubes estão jogadores que vestiram a camisa e fizeram história. Atletas que passaram muitos anos vestindo a camisa do clube e que, com certeza, ocupando um cargo de treinador ou de coordenador da base, vai se dedicar para revelar talentos, para que os clubes não tenham a necessidade de contratar tanto e, sim, o atleta ser revelado dentro do clube e posteriormente, fazer parte da equipe principal. 

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DS: Como se deu o convite para o futebol feminino?

SA: Cara, esse convite, agora, dia 20, 25 desse mês, vai completar um ano que eu estou à frente do futebol feminino. Há um ano atrás, eu fui convidado a dar uma palestra para o futebol feminino. Eu não tinha intenção nenhuma em comandar uma equipe feminina. Não tinha experiência, nunca tinha comandado. E fui, fiz minha palestra. Tive a minha conversa com o grupo. E um mês depois ou menos de um mês, eu recebo o convite para assumir a equipe. Não foi nada programado. Pra mim foi uma surpresa. Como também, diante do nosso diretor da base geral, o Eduardo Arruda, ele me falou que ficou até sem jeito de me fazer o convite. Primeiro porque ele sabia que eu não tinha trabalhado com futebol feminino e não tinha experiência. E quando eu recebi esse convite, eu sabia que tinha poucos dias que antecedem o primeiro jogo contra o Cruzeiro, pra me adaptar com o futebol feminino, conhecer o grupo, memorizar o nome das atletas, fazer com que elas assimilassem a minha forma de trabalho, a minha filosofia de trabalho, deixasse de lado o “Carrasco”, o ídolo, mas visse o treinador, o amigo, diante delas. Então foi pouco tempo pra que eu desse uma reviravolta grande. E eu não poderia dizer “não” para o Ceará. Lógico, nós não tivemos dois resultados positivos, que foram os dois jogos contra o Cruzeiro, mas em contrapartida, demos sequência ao trabalho e no ano passado fomos campeões invictos do sub-20 e com o principal. E agora estamos dentro de um Campeonato Brasileiro, onde fizemos a nossa estreia, e graças a Deus, vencendo e vencendo bem. E agora esperando, na expectativa do reinício e também na expectativa do início do Campeonato Cearense sub-18, que também nós temos um grupo sub-18, preparado, só aguardando uma definição da data da Federação que essa competição, era pra ter início no dia 9 de maio, mas, por conta da pandemia, não foi possível. Então estamos também à espera da Federação Cearense sobre esse Campeonato sub-18.

DS: A abordagem e o ritmo de treino do feminino, têm muita diferença pro masculino?

SA: Lógico que tem. Não tem muita. O que muda é o tempo de trabalho. É você entender o dia delas. Lógico, todas as mulheres têm seu dia. Isso tudo é analisado, o período de cada uma. Além disso, tem o como você agir, o como você cobrar, o como você chegar numa atleta. Então tem um pouco de diferença. Agora em termos de ritmo de trabalho, é quase idêntico. Lógico, você tem que dar um respaldo maior, por ser um sexo diferente. Uma carga de trabalho, você tem que dosar e saber como utilizar e como usar o tempo com as atletas.

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DS: Sérgio, e as maiores dificuldades que você enfrentou e ainda enfrenta com o futebol feminino?

SA: A maior dificuldade, são os dias delas. Cada uma delas tem o dia menstrual de todas as mulheres. Às vezes, numa véspera de jogo. Às vezes, cai no dia de jogo. Quando cai durante a semana, dá pra você administrar, porque cada uma trabalha nas suas condições. Se dá pra fazer o trabalho todo, faz. Se não der pra fazer todo, faz só um pouco. Se não der pra fazer nada, fica fora. Depende de cada uma. Tem umas que sentem cólica muito forte, não dá pra trabalhar, fica fora. Tem outras que sentem cólica, mas dá pra fazer meio- trabalho. Às vezes dá fazer total. A gente vai dosando, vai conversando com elas até onde suportam. O ruim é no dia do jogo, porque não tem como você ficar: ‘’E aí? Como que tá? Dá quanto tempo?’’. Então é isso, tem o vestiário no dia a dia. No dia a dia é mais fácil, porque tem o meu vestiário, que é à parte do vestiário delas. Agora no jogo, aí complica um pouco. Porque eu tenho que dar preleção no intervalo. Às vezes tem campo que a gente nem vai pro vestiário. Fica no campo. Isso facilita pra mim. Mas quando em algum estádio que a gente vai necessariamente, para um vestiário, ou antes, do jogo ou no intervalo, aí eu sei o meu tempo. Eu pergunto se eu posso entrar. Porque ali, eu vejo que é o ambiente delas. Não é meu, é delas. E pra que eu adentre, eu peço permissão. Eu pergunto se eu posso entrar, se tá tudo ok. Quando é no intervalo, eu dou um certo tempo pra elas e pergunto se posso entrar. Quando dão o ok de sim, eu entro, converso e volto, quando não é necessário ir pro vestiário, eu converso lá mesmo no campo, no intervalo. Então existe esse elo né, essa conversa. Porque eu tenho que saber é que eu estou em um local que o sexo que estou comentando é diferente do meu. Então eu tenho que pedir permissão pra entrar e também tenho que ter cuidado e saber a hora e o momento de entrar.

DS:  Você já teve algum caso de atleta que resolveu ser mãe e quis voltar? Maternidade é um fator de dificuldade pra um atleta do futebol feminino?

SA: Isso aí pra mim, eu não tive nenhum problema. Eu sei que tem garotas que têm filhos no nosso grupo, mas até o momento, estar grávida, nós não tivemos.

DS: Sobre a estrutura dos clubes entre o feminino e masculino, é muito diferente?

SA: Hoje o Ceará tem uma estrutura e uma condição para o futebol feminino, onde muitas equipes, que muita gente acha que são superiores ao Ceará, que acha que é superior a estrutura, as condições do futebol feminino mais do que o Ceará, se enganam. A prova é que nós temos no nosso grupo, atletas que passaram por vários clubes grandes do futebol brasileiro e quando hoje estão dentro do Ceará, se admiram com a estrutura, com as condições que o Ceará dá, com a forma que o Ceará trata o futebol feminino. Hoje a equipe adulta, todas elas têm carteiras assinadas. Coisa que muitos clubes que já têm o nome muito elevado no cenário nacional, não têm carteira assinada e hoje o Ceará tem. Então, o Ceará hoje, dá todas as condições para o futebol feminino, começando pelo respeito. E indo a todos os quesitos profissionais.

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DS: Sobre o protesto da seleção feminina americana por reivindicações salariais igualitárias entre masculino e feminino e sobre a possibilidade de acontecer no Brasil…

SA: Isso aí eu acho que não vai existir nunca. Eu falo nunca, com todo o respeito ao futebol feminino, que é onde eu trabalho, onde eu comando, onde eu sou treinador. Mas eu acho que não. Eu acho que dificilmente a gente vai ver uma atleta, uma jogadora do futebol feminino ganhar 800 mil reais, 1 milhão de reais, como muitos jogadores profissionais ganham. Mas eu digo que hoje, as atletas do Ceará ganham muito bem, pra jogar no futebol feminino. Por ser mulher, são salários muito bons, que o Ceará paga.

DS: Sobre o avanço do futebol feminino contra conceitos machistas presentes no futebol?

SA: Depois da Copa do Mundo, o futebol feminino ganhou uma dimensão, uma força maior. A expectativa é que o futebol feminino se fortaleça cada vez mais. A proporção é que o futebol feminino a cada ano que passar, vai ser cada vez mais valorizado. Tem procuradores, procuradoras no futebol feminino. Coisa que a gente não via. Então o futebol feminino tá crescendo. Crescendo em todos os aspectos. E eu me sinto muito feliz de estar no comando e vendo esse crescimento e fazendo parte desse crescimento e dando minha contribuição lá no Ceará.

A equipe profissional feminina do alvinegro, espera o retorno do campeonato brasileiro Série A2. A equipe chegou a fazer a partida de estreia contra o Oratório, e venceu por 5×0, no dia 15 de março, na cidade Vozão. No dia 16, o governo estadual decretou isolamento social e paralização das atividades esportivas.

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